domingo, 2 de novembro de 2025

Obra Inacabada

 

Obra Inacabada

Saiu de casa sem olhar pra trás, sem dizer palavra
Pisou na rua sem notar o sol, sem ouvir a brisa
Seguiu depressa sem medir o chão, sem contar os passos
Levou nos olhos um restinho azul, uma saudade de casa.

Cruzou esquinas sem pedir licença, sem querer destino
Subiu calçadas desviando o medo, desenhando sombras
Sentiu na pele um suor febril, um clarão na tarde
Pensou na vida sem saber por quê, sem saber de nada

E tropeçou na contramão do vento, no calor de agosto
E se perdeu entre os faróis acesos, entre as mãos aflitas
E se calou quando o trovão rugiu, quando a chuva veio
E então caiu feito um fardo morto, feito um som sem eco

Caiu no asfalto como um corpo flácido, sem causar estrondo
Caiu na pressa dos que não o viram, dos que não podiam
Caiu no tempo sem deixar retrato, sem deixar história
E descansou feito um sonho breve, feito um grão de areia

 

Sergio Monteiro Cardoso, 22/03/2025

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