Espelhos
Partidos
Quando nasci, havia um olhar torto na esquina
e um silêncio inquieto pairando na sala.
Meu nome já era um rascunho no vento,
e o destino, um bilhete amassado no bolso de alguém.
As ruas sempre me pareceram estreitas demais
para caber todos os sonhos que inventei.
Mas os sonhos se moldam ao espaço que têm,
e às vezes cabem inteiros no vão da janela.
Os espelhos nunca souberam meu rosto por
completo.
Cada dia me olham de um jeito,
como se tentassem adivinhar quem sou
ou como se não soubessem o que fazer comigo.
O mundo me acena com gestos confusos,
e eu respondo com um sorriso cansado,
como quem dança sem saber a música,
como quem fala sem saber se há resposta.
Talvez eu seja só um nome riscado na areia,
um rastro breve na chuva de março,
um esboço de alguém que passou por aqui
e esqueceu de dizer a que veio.
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