domingo, 2 de novembro de 2025

Biblioteca, Pedra que Pensa

 Biblioteca, pedra que pensa

Na prateleira dormem os mundos

e sonham.
Encadernados, esquecidos,
mas vivos como uma veia sob a pele do tempo.

Há um menino curvo,
curvado não de cansaço
mas de escuta.
Seus olhos devoram letras
como quem aprende a ver
o que o mundo esconde nas entrelinhas.

Não há sino, não há pressa,
apenas o silêncio ordenado dos livros,
que falam mais que a praça
e gritam menos que a escola.

Ali, um homem encontra um heterônimo novo:
o leitor.
Um ser que, ao abrir um livro,
abre também
um corredor dentro do peito.

Alguém deixaria um poema
num livro esquecido ao acaso.
E outro, anos depois,
encontraria nele um espelho
ou um muro.
Ambos refletem.

Mas outro diria:
a biblioteca é fábrica.
Não de cimento,
de linguagem.
Cada livro: um tijolo.
Cada página: um pulso.
Cada leitor: uma cidade por construir.

Porque o livro sozinho
é um deserto
onde palavras são só areia.
Mas lido
vira mapa,
bússola,
vértice.

E a biblioteca?
Essa casa sem dono
onde todo mundo cabe,
e cada qual sai um pouco mais outro.

 

Sergio Monteiro Cardoso  (12/04/2025

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