Biblioteca, pedra que pensa
Na
prateleira dormem os mundos
e sonham.
Encadernados, esquecidos,
mas vivos como uma veia sob a pele do tempo.
Há um menino
curvo,
curvado não de cansaço
mas de escuta.
Seus olhos devoram letras
como quem aprende a ver
o que o mundo esconde nas entrelinhas.
Não há sino,
não há pressa,
apenas o silêncio ordenado dos livros,
que falam mais que a praça
e gritam menos que a escola.
Ali, um
homem encontra um heterônimo novo:
o leitor.
Um ser que, ao abrir um livro,
abre também
um corredor dentro do peito.
Alguém
deixaria um poema
num livro esquecido ao acaso.
E outro, anos depois,
encontraria nele um espelho
ou um muro.
Ambos refletem.
Mas outro
diria:
a biblioteca é fábrica.
Não de cimento,
de linguagem.
Cada livro: um tijolo.
Cada página: um pulso.
Cada leitor: uma cidade por construir.
Porque o
livro sozinho
é um deserto
onde palavras são só areia.
Mas lido
vira mapa,
bússola,
vértice.
E a
biblioteca?
Essa casa sem dono
onde todo mundo cabe,
e cada qual sai um pouco mais outro.
Sergio Monteiro Cardoso (12/04/2025
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