domingo, 2 de novembro de 2025

Filho do Tempo

 Filho do Tempo

 

Eu sou como estou.

E nem sempre fui como sou.

Esta pele que me veste.

Esse corpo que se move.

Essa pessoa, esse nome.

Essa sombra que me segue.

Sou página de um livro aberto

Desfolhado pelo vento.

A pedra que sustenta

As paredes do convento.

O ar que se espalha

Nas névoas do infinito.

A hora derradeira

Que é alegria da chegada

E saudade na partida.

Eu sou o ontem e o hoje.

O elo dessa viagem.

Nas terras do Egito irriguei os campos,

Colhi o trigo e fiz o pão,

Ergui templos e pirâmides.

E sofri nas minas escuras,

Da cobiçada Babilônia,

Do vaidoso Alexandre.

E na Roma de Nero rezei com fé.

E nas catacumbas me escondi.

Eu já fui padre, já fui monge,

Fui majestade e serviçal.

Lancei semente na terra

E alimentei o faminto.

E construí os palácios

Da Europa Medieval.

E na África me roubaram a liberdade.

E na América os meus filhos

Se chamaram revolução.

Eu sou a história de outras vidas

Que vieram antes de mim.

Eu sou a estrada

Que atravessa o vale

E mostra a direção.

Eu sou o que foi,

O que é,

E o que será.

Eu estava no começo e estarei no final

Eu sou o que sou

Por que me fizeram assim.

Minha alma é feita de vidas

Machucadas e feridas.

Muitas vezes eu nasci e também renasci

E continuo nesse estágio

Colecionando os séculos que há por vir...

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