O Mundo
Começa em Mãe
No
princípio era o colo.
Não o verbo. Nem o caos.
Era o colo —
e tudo se explicava ali.
Mãe é uma
palavra que anda devagar
pelas veias da memória,
e nunca cansa de me lembrar.
Como uma pedra que escuta,
como um retrato que respira.
Não é
heroína.
Não voa, não fere dragões,
mas carrega sacolas, contas,
e filhos...
como se
fossem pássaros
a aprender o voo.
Mãe erra,
tropeça, chora escondido,
mas segue,
porque tem um pacto com o mistério:
o de continuar mesmo quando não sabe como.
Se o mundo
acaba,
a mãe reconstrói com agulha e pão,
com conselhos repetidos
e um afeto que nem sempre se entende,
mas se sente.
Mãe é
aquela que fica quando tudo vai.
E que parte,
mas nunca nos deixa sós.
(Se eu
pudesse, mãe,
te escreveria no cimento das horas
para que nunca te apagassem.)
Mãe,
não sei dizer teu nome sem que escorra um pouco
de infância pela boca.
Teu nome não é substantivo:
é refúgio,
é esquina onde encosto o peito cansado.
Às vezes
penso que nunca te vi de verdade.
Estavas sempre ocupada sendo mãe.
(Ser mãe é coisa que esconde a mulher por dentro.)
Tuas mãos,
lembro bem:
um mapa de linhas cruzadas
com destino certo:
me proteger.
Teu
silêncio ensinava mais que discursos.
Teu jeito de colocar o prato na mesa
era uma poesia diária —
sem rima, mas com fome de mundo.
Hoje,
morando longe de ti
(e talvez de mim),
vejo tua presença nas pequenas coisas:
o modo como dobro uma toalha,
o cuidado ao fazer café.
Você não
sabia,
mas virou parte das minhas manias.
Virou parte de mim,
sem que eu percebesse.
Se eu
pudesse, mãe,
voltava para a proteção do teu colo
pra te dizer — sem cerimônia, sem data, sem medo —:
“Obrigado por ter sido chão
quando eu só queria voar.”
Sergio
Monteiro Cardoso (Maio, 2018)
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