O mundo
O mundo não
cabe no espanto das mãos espalmadas,
não cabe no assombro do olhar do incrédulo,
não cabe na dúvida de quem perdeu a fé,
nem na certeza comprada em moeda fraca.
O mundo
escorre pelas frestas do sonho,
espalha poeira nos pés descalços da manhã,
ri de nossas preces engasgadas,
zomba das fórmulas, dos mapas, dos pactos.
Carregamos
o mundo como uma pedra úmida,
às vezes esquecendo, às vezes jurando amor eterno.
Mas ele, o mundo, tão indiferente,
prefere a sombra das árvores ao calor das palavras.
Quem dera
coubesse nas coisas simples,
ou na esperança escondida no aperto de mão.
mas o mundo estala, range, se despedaça
e se parte em fragmentos com nomes inventados,
e a cada nome nos perdemos em novos mundos fabricados.
Mas cabe
num anúncio de jornal,
num contrato de trinta páginas que ninguém lê,
num sorriso amarelo na fila do banco.
O mundo,
esse projeto mal desenhado,
cabe inteiro no bolso do oportunista,
no discurso mole do profeta de ocasião,
na vitrine onde vende felicidade em três vezes sem juros.
Mas não
cabe no abraço do velho solitário,
nem na fome do menino magro,
ele cabe direitinho no palanque, no edital,
na selfie sorridente em frente à tragédia.
Talvez o
erro seja nosso,
de querer um mundo fraterno,
quando ele prefere mesmo
é a moldura dourada, um tapinha nas costas,
e um lugar de destaque na próxima promoção.
O mundo
fica bem na ata da reunião,
no aperto de mão que carrega veneno,
no cafezinho servido entre duas traições.
O mundo não
cabe no pranto da mãe despejada,
mas cabe no gesto polido do executivo,
que assina a demissão sem borrar o esmalte.
Não cabe no
soluço abafado da noite,
mas se ajeita, confortável,
entre as páginas do relatório de crescimento.
O mundo é
vasto demais para a poesia,
estreito demais para a consciência,
largo o suficiente para o lucro líquido,
sujo o bastante para a manchete breve
que amanhã ninguém mais lembrará.
O mundo —
não esse das crianças de rua,
mas o outro, de azulejos brilhantes e frases motivacionais —
cabe inteiro no porta-luvas do carro blindado,
na etiqueta da roupa importada,
no sorriso automático das campanhas de doação.
E a gente,
descalço, perplexo, desempregado,
continua tentando carregá-lo nas costas,
sem perceber que o mundo
há muito já se mudou para um condomínio de luxo.
Mas o mundo
cabe folgado,
no discurso comovente do político eleito,
no delírio controlado das bolsas de valores,
no aplauso programado das plateias cansadas.
Não cabe no
gesto nu da verdade,
nem na boca seca de quem pede socorro,
mas desliza macio no bilhete premiado,
no sorriso fixo da televisão que promete milagres,
na missa patrocinada e no show de horrores.
O mundo é
grande demais, dizem,
mas não passa de uma oferta relâmpago,
de um app que atualiza sua miséria com notificações.
O mundo é
tão moderno que já desaprendeu a ser humano,
tão eficiente que não precisa mais fingir piedade,
tão lucrativo que transforma lágrimas em ativos de mercado.
E nós,
anônimos, sem sobrenome, quebrados, mofando em filas,
batendo ponto em sonhos falidos,
ainda juramos que amanhã melhora,
porque acreditamos, estúpidos que somos,
que o mundo ainda nos deve alguma explicação.
Sergio
Monteiro Cardoso (29 e 30 de abril de 2025)
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